Seleção e utilização de Recursos Educacionais Abertos - Parte II

Na continuidade da atividade desenvolvida no último post, na Unidade Curricular “Materiais e Recursos para eLearning (mPeL) 2025”, onde analisei o REA “Cidadão Ciberinformado” (NAU), vamos agora aprofundar a comparação entre recursos educativos disponíveis online dentro da mesma temática — literacia digital, media literacy e combate à desinformação.

Desta vez procurei deliberadamente um REA verdadeiramente aberto, permitindo reutilização, adaptação e remix (algo limitado no REA anterior), para compreender melhor o potencial de complementaridade entre recursos institucionais (Big OER) e recursos com licenças abertas flexíveis.

Escolhi, assim, o REA “Understanding Media Literacy”, disponível no OER Commons com licença CC BY 4.0 (totalmente aberta) 

Tal como fiz no REA 1, aplico agora os mesmos critérios de seleção, avaliação e análise, seguindo as mesmas referências como UNESCO, OCDE, SACAUSEF, LORI, TIPS Framework e o framework europeu DigCompEdu. 


                                                                                                              lustração criada com apoio do Microsoft Copilot

1. Relevância social e curricular

Tal como no REA 1, o REA “Understanding Media Literacy” aborda uma temática central na cidadania digital contemporânea: a capacidade de interpretar criticamente informação, compreender dinâmicas de media, reconhecer enviesamentos e identificar desinformação:

  • alinhamento com políticas internacionais de educação digital e media literacy (UNESCO, OCDE, DigComp e DigCompEDU);
  • aplicabilidade imediata em contextos educativos formais e não formais;
  • pertinência face ao contexto atual de proliferação de IA generativa, deepfakes e conteúdos sintéticos.
Em ambos encontramos a mesma preocupação e aplicabilidade sociopedagógica e podem ser usados de forma complementar:

1) o REA 1 (NAU) foca-se na verificação de factos,
2) o REA 2 (OER Commons) foca-se na compreensão dos media e construção crítica.


2. Qualidade do conteúdo (científica, técnica e pedagógica)

A análise do REA 2, segundo as referências já iadas no post anterior, mostra:

  • Rigor científico - apresenta definições claras de media literacy, referencia práticas reconhecidas internacionalmente e inclui exemplos e atividades que remetem para cenários concretos de consumo mediático.
  • Atualidade e fiabilidade das fonte - embora menos “institucional” que o REA 1, o material apoia-se em conceitos basilares da literacia mediática e boas práticas globalmente aceites.
  • Adequação pedagógica ao público-alvo - o conteúdo é modular e dirigido a estudantes do ensino secundário e superior. Incentiva pensamento crítico, análise de mensagens mediáticas e desconstrução de intenções comunicacionais.
  • Clareza conceptual e linguagem acessível - Tal como o REA 1, apresenta definições claras e atividades guiadas.
Podemos estabelecer assim uma grelha de comparação entre os dois REA:

                       Critério

REA 1 — NAU

REA 2 — OER Commons

Rigidez

Estrutura muito fechada

Estrutura aberta e adaptável 

Interatividade

Baixa a média

Média, com atividades práticas replicáveis

Atualidade do tema e recursos usados

Muito atual

Muito atual

Profundidade teórica

Elevada

Média, focada em aplicações práticas


REA1 - mais descritivo, informativo
REA2 - mais prático, exploratório


3. Clareza pedagógica e estrutura formativa

Tal como no REA 1, verifica-se a presença de:
  • objetivos de aprendizagem explícitos;
  • atividades sequenciadas;
  • tarefas orientadas para a reflexão crítica;
  • modularidade (componentes autónomas e reutilizáveis).
O REA 2, contudo, apresenta maior flexibilidade, permitindo - numa utilização do curso facilitada - ao docente reorganizar tarefas e conteúdos, integrá-los em diferentes sequências pedagógicas ou adaptá-los a outras áreas curriculares.

4. Acessibilidade tecnológica e usabilidade

Tal como a plataforma NAU, o OER Commons:
  • tem navegação simples e acessível;
  • permite download, adaptação e reuso dos materiais;
  • funciona em qualquer dispositivo;
  • inclui ferramentas de pesquisa, filtragem e remix.
Aqui o REA 2 destaca-se claramente, pois uma permite "abertura total": exportação, edição e reintegração dos materiais em ambientes educativos.

5. Escala, impacto e confiabilidade institucional

Embora não tenha a escala massiva do REA 1 (mais de 38.000 inscritos), o REA 2 beneficia de:
  • curadoria do OER Commons;
  • licenciamento aberto e reutilização global;
  • integração em repositórios reconhecidos internacionalmente.

6. Abertura e licenciamento

Este é o critério onde há maior contraste.

REA 1 – Licença CC BY-NC-ND
  • permite uso e partilha;
  • não permite adaptar;
  • não permite remix;
  • limita criação de materiais derivados.

REA 2 – Licença CC BY 4.0
  • permite remix, adaptação e reutilização total;
  • pode ser integrado em LMS, blogs, cursos, webquests;
  • incentiva construção colaborativa.

REA 2 cumpre plenamente os 5R de Wiley: retain, reuse, revise, remix, redistribute.
REA 1 não cumpre, devido ao ND.

Ao contrário do REA1 - NAU, o REA2 - OER permite: 
  • adaptar o conteúdo ao público-alvo;
  • traduzir, cortar ou expandir módulos;
  • integrar com atividades do REA 1;
  • construir dossiers temáticos;
  • criar exercícios adicionais;
  • desenvolver webquests ou desafios práticos reutilizando partes do curso.

Conclusão geral

Os dois REA complementam-se de forma exemplar:
  • REA 1 fornece o conteúdo estruturado, rigoroso e validado institucionalmente sobre desinformação.
  • REA 2 oferece flexibilidade pedagógica, incorporação prática e desenvolvimento crítico através da exploração dos media.
  • Usados em conjunto, proporcionam um ecossistema formativo completo para desenvolver literacia digital, media literacy e competências de cidadania numa sociedade altamente mediada e permeável a fake news. 

Proposta integrada de utilização do REA 1 e REA 2 
numa atividade de aprendizagem

Contexto: Ensino Secundário (EQF3), Ensino Profissional (EQF4) ou Ensino Superior, nas áreas de:
TIC, Cidadania Digital, Ciências Sociais, Comunicação, Português ou Media Studies.

Modalidade: Blended Learning ou Flipped Classroom.

Objetivos da atividade integrada /REA1+REA2): pretende-se que os estudantes sejam capazes de:
  • desenvolver literacia digital e literacia mediática;
  • analisar criticamente casos reais de desinformação;
  • aplicar critérios de verificação de fontes (REA 1);
  • analisar mensagens mediáticas, intenções e estratégias de comunicação (REA 2);
  • compreender como se constrói, circula e distorce a informação;
  • exercer cidadania digital responsável, crítica e ética.
Etapas sugeridas

1. Pré‑aula — Aprendizagem autónoma

            1.a) REA 1 — NAU: “Cidadão Ciberinformado”
            Os estudantes completam os módulos selecionados sobre:
  • tipos de desinformação,
  • métodos de verificação,
  • fact‑checking,
  • critérios de fiabilidade das fontes.
        1.b) REA 2 — OER Commons: “Understanding Media Literacy”
        Os estudantes exploram módulos sobre:
  • análise dos media,
  • intenção comunicativa,
  • construção de mensagens,
  • identificação de enviesamentos,
  • persuasão e retórica visual.

Objetivo da fase pré‑aula:
Criar uma base conceptual dupla:

REA1 → “Como identificar se é falso”
REA2 → “Como o media constrói a mensagem”


2. Aula síncrona / presencial — Peer Learning

        2.a) Debate guiado
        Com guiões produzidos pela professora/docente, analisar:
  • Como cada REA aborda o fenómeno da desinformação.
  • Diferenças entre verificação (REA1) e interpretação crítica dos media (REA2).
  • Exemplos reais: notícias, posts, vídeos curtos, imagens manipuladas.
    2.b) Análise crítica de casos reais de desinformação
    Cada grupo recebe:
  • um caso real de fake news (texto, imagem, vídeo, post),
  • e aplica os dois olhares:

Olhar REA 1 → verificação:
    • a informação é verdadeira?
    • há fontes?
    • há sinais de alerta?
    • há manipulação de contexto?

Olhar REA 2 → análise mediática:
    • quem comunica?
    • com que intenção?
    • que estratégias visuais/retóricas são usadas?
    • quem é o público‑alvo?
    • que emoções procura ativar?
3. Atividade prática (produção dos estudantes)
    
    3.a) Produção de uma análise crítica multimodal
    Cada grupo:
  • escolhe um novo caso de desinformação (ou recebe um);
  • aplica uma grelha dupla de análise, construída a partir dos critérios dos dois REA:
Componentes REA 1: veracidade, fontes, fiabilidade, sinais de alerta.
Componentes REA 2: intenção, construção da mensagem, retórica, público-alvo, media envolvido.

    3.b) Criação de um “dossiê crítico”
    Todos os grupos produzem:
  • uma análise escrita,
  • uma ficha resumo,
  • um pequeno vídeo ou infografia,
  • ou um carrossel para redes sociais com recomendações críticas.
4. Reflexão e partilha
   
     4.a) Partilha em fórum, padlet ou wiki
    Cada grupo publica:
  • o caso analisado,
  • a análise crítica dupla,
  • o produto multimodal criado.
    4.b) Feedback entre pares
    Os estudantes usam uma grelha simplificada para comentar:
  • clareza,
  • rigor,
  • profundidade crítica,
  • organização,
  • ética digital.
    4.c) Discussão final
    Promover a síntese:
  • O que aprendemos com o REA1 que o REA2 não tinha?
  • O que o REA2 permitiu compreender melhor do que o REA1?
  • Que competências combinadas emergem desta união?
5. Avaliação
Avaliação baseada numa grelha com quatro dimensões:

Conteúdo — rigor da informação, fundamentação crítica.
Pensamento crítico — capacidade de questionar, comparar e interpretar.
Rigor metodológico — aplicação consistente dos critérios dos dois REA.
Ética digital — responsabilidade, respeito pela veracidade e integridade dos factos.

EM CONCLUSÃO
Valor pedgógico  da integração REA 1 + REA 2

O REA 1 traz método e estrutura para verificar factos.
O REA 2 traz interpretação crítica dos media e leitura das mensagens.
Juntos permitem compreender como a desinformação é construída (REA1) e como pode ser identificada e desmontada (REA2). Esta articulação cria uma unidade de aprendizagem completa, transversal e alinhada com as competências de cidadania digital. A flexibilidade de uso dos REA permite a adaptação e adequação dos conteúdos à medida das necessidades do docente, do tempo disponível e do nível de conhecimento da turma. 

Referências:
As mesmas do post anterior. 

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