Por ocasião da atividade de Artefacto sobre REA, em dezembro passado, na Unidade Curricular "Materiais e Recursos para eLearning (mPeL) 2025" tive a oportunidade de me debruçar sobre o Curso intitulado “Cidadão Ciberinformado” disponível na plataforma NAU.
A escolha deste recurso resulta da aplicação de um conjunto de critérios sustentados na literatura sobre qualidade de Recursos Educacionais Abertos (REA), Recursos Educativos Digitais (RED) e modelos internacionais de referência, incluindo UNESCO (2002, 2012, 2017), OCDE (2015), OER Trust Framework, SACAUSEF, DigCompEdu, entre outros.
Retomo, deliberadamente, à seleção deste mesmo recurso agora, à luz desta atividade, revendo e explorando os critérios de seleção de forma sistematizada:
lustração criada com apoio do Microsoft Copilot
1. Relevância social e curricular
A temática da literacia digital, da cidadania digital e do combate à desinformação alinha-se com prioridades educativas nacionais e internacionais e tão necessárias nos dias de hoje, dado o contexto político nacional e internacional e ascensão galática da IA generativa.
Segundo a UNESCO (2012; 2017), os REA contribuem para:
- promover competências essenciais para a participação na sociedade digital,
- apoiar direitos fundamentais como o acesso à informação e à educação,
- fomentar pensamento crítico e responsabilidade digital.
A OCDE (2015) reforça que REA devem responder a desafios educativos contemporâneos, entre os quais a literacia mediática e a capacidade de avaliar criticamente informação em ambiente digital.
Assim, o curso da NAU cumpre este princípio, posicionando-se como conteúdo de utilidade pública, alinhado com recomendações internacionais para recursos digitais relevantes e socialmente significativos.
2. Qualidade do conteúdo (científica, técnica e pedagógica)
Critérios de qualidade como os apresentados por:
- SACAUSEF (conteúdo, pedagogia, tecnologia e atitudes/valores),
- LORI (Learning Object Review Instrument),
- Rúbricas de Yuan & Recker (2015),
- TIPS Framework (Kawachi, 2014),
- Camilleri, Ehlers & Pawlowski (JRC, 2014),
apontam que REA de qualidade devem apresentar:
- rigor científico – existência de plano de curso, resultados de aprendizagem, material de apoio
- atualidade e fiabilidade das fontes – agência noticiosa, media credível, códigos dentológicos, artigos da constituição, etc.
- adequação pedagógica ao público-alvo – “Este curso destina-se a todos os cidadãos que consultam informação online. Desta forma, pretende-se não só alertar para os perigos de um consumo de informação sem espírito crítico, como também partilhar conhecimentos que ajudem os cidadãos a verificar se a informação que consultam na internet é verdadeira.”
- clareza conceptual – linguagem clara, acessível e direta;
- coerência interna e estrutura modular – seis módulos, questões para teste de conhecimento.
3. Clareza pedagógica e estrutura formativa
- objetivos de aprendizagem explicitados;
- organização modular;
- orientações claras para o percurso formativo;
- adequação da linguagem ao público.
4. Acessibilidade tecnológica e usabilidade
Segundo Sousa & Coutinho, a usabilidade é componente essencial da qualidade dos RED, incluindo:
- facilidade de navegação,
- clareza visual,
- compatibilidade técnica,
- tempo de carregamento,
- acessibilidade em diferentes dispositivos.
A plataforma NAU cumpre estes parâmetros, permitindo uma experiência fluida, coerente com padrões internacionais de repositórios e MOOCs (OCDE, 2015; JRC OpenEdu; Weller, 2010).
5. Escala, impacto e confiabilidade
A literatura evidencia que REA produzidos em projetos institucionais “Big OER” (Weller, 2010; OCDE, 2015)
- são mais facilmente adotados,
- transmitem confiança,
- apresentam padrões rigorosos de produção,
- possuem impacto e visibilidade ampliados.
- tem mais de 38.000 inscritos,
- mantém várias edições ao longo dos anos,
- está alojado num portal público e financiado por fundo públicos nacionais e europeus,
- é desenvolvido em parceria com entidades oficiais.
6. Abertura e licenciamento
A literatura exige que um REA:
• seja disponibilizado com uma licença aberta (UNESCO, 2002, 2012);
• permita pelo menos os 5R (retain, reuse, revise, remix, redistribute) — Wiley.
No entanto, já como observado na atividade de produção de um “Artefacto sobre REA”, este curso utiliza a licença CC BY-NC-ND, o que:
- permite uso e partilha,
- mas impede adaptação,
- e limita o potencial de remix (contrariando os 5R).
Adaptações possíveis (respeitando a licença ND)
De acordo com a CC BY-NC-ND, só é possível:
- Usar tal como está: Sem alterações no conteúdo.
- Selecionar módulos específicos: Sequenciar ou reorganizar o percurso fora da plataforma.
- Criar materiais externos complementares, como: guiões de análise crítica; fichas de trabalho; debates orientados; desafios práticos (ex. webquests); estudos de caso
- Integração pedagógica contextualizada: O conteúdo não muda, mas a mediação docente sim (Downes, Open Practices; DigCompEdu). P. ex. uso deste REA em contexto de ensino secundário ou superior, utilizando uma estratégia de blended learning ou flipped classroom.
Proposta de utilização numa atividade de aprendizagem
Contexto: Ensino secundário (EQF3), Ensino Profissional (EQF4) ou superior - áreas de TIC, cidadania, ciências sociais, etc..
Modalidade: Blended learning ou flipped classroom.
Objetivos da atividade
- desenvolver literacia digital;
- analisar criticamente casos de desinformação;
- aplicar critérios de verificação de fontes;
- exercer cidadania digital responsável.
Etapas sugeridas
1. Pré-aula (aprendizagem autónoma)
a) Estudantes completam os módulos selecionados do curso NAU
2. Aula síncrona/presencial (peer-learning)
a) Debate guiado (com recurso a guiões produzidos pelo/a docente);
b) Análise crítica de casos reais de fake news.
3. Atividade prática
a) Cada grupo escolhe um caso de desinformação e aplica uma grelha de análise justificando assim a escolha.
4. Reflexão e partilha
a) Publicação em fórum, padlet ou wiki.
b) Feedback entre pares.
c) Promoção da discussão e conclusões.
5. Avaliação
a) grelha baseada nas dimensões: conteúdo, pensamento crítico, rigor, clareza e ética digital.
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