No âmbito do Tema 2 – Ambientes Pessoais de Aprendizagem (PLEs), construí uma infografia no Canva com o objetivo de tornar visível o meu "mapa" de ferramentas e práticas digitais. O desafio proposto pela professora Maribel Pinto foi identificar os diversos espaços de aprendizagem que utilizo frequentemente, agrupá-los por dimensões e mostrar como se articulam no meu processo de aprendezagem e trabalho em rede.
Ao observar esta infografia, reconheço que o meu Personal Learning SPLE é, antes de mais, um ecossistema intencional. Esta ideia aproxima-se da perspetiva de Attwell (2023), para quem o PLE representa não uma aplicação isolada, mas uma forma de pensar a aprendizagem — um conjunto integrado de ferramentas, práticas e comunidades que cada pessoa organiza de forma autónoma para suportar o seu processo de aprendizagem ao longo da vida (LLL). Como sublinha Mota (2009), o PLE é simultaneamente um conceito técnico e pedagógico: não se trata apenas de colecionar ferramentas, mas de as articular com consciência, propósito, intencionalidade pedagógica e reflexividade.
Um aspeto que este exercício tornou especialmente visível é que várias ferramentas servem múltiplos propósitos. O Canva, por exemplo, aparece na dimensão Criar/Produzir, mas foi também o instrumento com que construí esta própria infografia — funcionando assim como espaço de síntese e reflexão. O Microsoft Teams é central na colaboração, mas serve igualmente a comunicação, o arquivo e o acesso a conteúdos institucionais na intranet e extranet, uma vez que me permite colaborar com parceiros fora da minha própria organização. O YouTube surge em Explorar/Descobrir, mas pode ser também espaço de produção e partilha. Esta permeabilidade entre dimensões é uma característica dos PLEs bem integrados: como defendem Rodrigues e Miranda (2013), as ferramentas ganham significado pedagógico não pela sua natureza individual, mas pela forma como são mobilizadas em contexto e em articulação umas com as outras, na atual sociedade em rede.
1) Explorar / Descobrir: onde começo (e recomeço)
A dimensão "Explorar/Descobrir" é o ponto de entrada do meu sistema de aprendizagem. Aqui situo ferramentas que me ajudam a procurar, acompanhar e filtrar informação: bases e redes académicas (Google Scholar, ResearchGate, Springer, SciHub), recursos multimodais (YouTube, podcasts de teor académico – como os mencionados no Padlet criado no âmbito do Tema 1) e mecanismos de monitorização (Google Alerts).
Downes (2005) já antecipava, em E-learning 2.0, que a “World Wide Web” inaugurava uma nova forma de aceder ao conhecimento: criado, participado, organizado, distribuído, e centrado no aprendente. O desafio desta fase não é apenas "encontrar", mas aprender a selecionar com critério, pensado no propósito final. Sem dúvida que, a exploração sem filtros, se transforma rapidamente em dispersão.
2) Curar / Organizar: transformar informação em conhecimento recuperável
É nesta dimensão que o meu PLE ganha consistência interna. Ferramentas como OneNote, Mendeley, Google Drive, Moodle, Teams/SharePoint, Blogger e Publuu constituem o meu "sistema de memória ou curadoria" — o espaço onde passo do "encontrei" para o que "faz sentido para mim". A este conjunto acrescento o meu blogue, que utilizo essencialmente como portfólio reflexivo do Mestrado em Pedagogia do eLearning: um espaço onde documento percursos, consolido aprendizagens e torno visível a minha evolução ao longo das diferentes disciplinas. Neste sentido, o blogue não é apenas um repositório — é um instrumento de metacognição, que me obriga a refletir criticamente sobre os diferentes conceitos e partilhar reflexões com intenção.
Curar é um ato genuinamente pedagógico: implica atribuir significado com propósito, relacionar ideias e criar estruturas de recuperação. Cenka et al. (2022), num modelo ontológico sobre PLE e aprendizagem ao longo da vida, sublinham que a organização do conhecimento pessoal é uma componente estruturante de qualquer ambiente de aprendizagem sustentável.
3) Idear / Sintetizar: IA como apoio ao pensamento
Nesta dimensão integro ferramentas de inteligência artificial — Microsoft Copilot, NotebookLM, Claude, Google AI Studio e Consensus — como suporte à geração de ideias, organização de estruturas, síntese de informação, refinação de texto, criação de infografias ou narração com voz artificial para resultados mais refinados.
Zhang et al. (2023) sugerem-nos que a personalização e a integração de tecnologias emergentes são tendências decisivas no desenvolvimento dos PLE's, alertando simultaneamente para os desafios que colocam em termos de literacia crítica e responsabilidade pelo nosso próprio processo de aprendizagem regulado (Self-Regulated Learning). No meu PLE, a IA entra em momentos específicos — estruturar um raciocínio, clarificar um argumento, explorar alternativas — mas exige sempre pensamento crítico, validação, consciência das suas limitações e atenção à privacidade de dados. Produzir melhor não é produzir mais depressa: é fazê-lo com rigor, ética e responsabilidade.
4) Criar / Produzir: tornar visível o que aprendo
A dimensão Criar/Produzir é onde o meu PLE se materializa em artefactos: módulos de e-learning, infografias, vídeos, apresentações, recolha de dados e recursos digitais. Aqui surgem ferramentas como Articulate 360 (RISE e Storyline p. ex), Canva, Gamma, PowerPoint, Powtoon, Clipchamp e FreeOnlineSurveys.
Pinto (2015), ao analisar o potencial pedagógico dos PLEs no ensino superior, sublinha que a criação de conteúdos pelos próprios aprendentes é uma das dimensões mais ricas e transformadoras destes ambientes. Quando crio um recurso, tenho de selecionar, organizar, relacionar e explicar — e isso torna visíveis lacunas de conhecimento, criação de relações, tradução de ideias e concretização raciocínios. Esta dimensão funciona assim como espaço de consolidação: a passagem do consumo e da organização para a expressão e a respetiva aplicação.
5) Colaborar / Co-criar: aprender em rede (com intenção)
O PLE não é apenas individual — expande-se quando existe rede. Nesta dimensão identifiquei ferramentas de colaboração síncrona e assíncrona: Microsoft Teams, Zoom, Padlet e Mural. Wheeler (2009) propõe precisamente a ideia de "learning webs" — teias de aprendizagem que se constroem através das conexões entre pessoas, ferramentas e conteúdos.
Colaborar implica negociar significados, construir consensos, receber feedback e iterar. A participação no Fórum do Tema 2, incentivada pela proposta pedagógica da disciplina, encaixa-se perfeitamente nesta lógica de aprendizagem em rede. Refletimos sobre o nosso próprio PLE, no entanto, vamos observar os PLEs dos pares e aprender nesse diálogo. Não basta dominar as ferramentas, há que criar momentos para o peer-learning, peer-testing: a comunidade, coautoria e inteligência coletiva são essenciais para a construção do nosso PLE.
6) Conversar / Socializar: presença e rede pessoal de aprendizagem
Esta dimensão reúne espaços de comunicação e presença digital: LinkedIn, Instagram, Facebook e WhatsApp. O foco aqui é menos a "ferramenta" e mais a prática social. Como argumenta Mota (2009), o PLE não existe de forma isolada — ele articula-se com a Rede Pessoal de Aprendizagem (PLN) de cada pessoa, ou seja, com o conjunto de contactos, comunidades e espaços de partilha que alimentam o processo de aprender.
Neste bloco retomo a ideia da necessidade de intencionalidade: socializar pode ser aprendizagem, desde que exista propósito — seguir fontes relevantes, participar, comentar, partilhar criticamente, fazendo parte da inteligência coletiva de que falava atrás. O LinkedIn, por exemplo, funciona aqui como plataforma de socialização, mas serve igualmente a curação de conteúdos profissionais, ilustrando mais uma vez a permeabilidade entre dimensões.
7) Gamificar: envolver, dinamizar e obter feedback formativo
Por fim, a dimensão Gamificar inclui ferramentas como Socrative, Mentimeter e Kahoot, associadas à dinamização de atividades e à recolha de feedback participativo. Gamificar não é "fazer jogos": é desenhar com intencionalidade pedagógica experiências com maior envolvimento, interação e retorno formativo.
Cabero-Almenara e Palacios-Rodríguez (2021), ao analisarem as e-atividades no contexto da educação virtual, realçam também a importância de estratégias que promovam participação ativa, feedback imediato e envolvimento genuíno dos aprendentes. No meu PLE, estas ferramentas procuram tornar a aprendizagem mais ativa, participada, dialógica e, por que não, mais lúdica.
O PLE como sistema dinâmico, reflexivo e permeável
Ao concluir este exercício, reconheço que o meu PLE é dinâmico e evolui com objetivos (profissionais, académicos e pessoais), projetos, necessidades e possibilidades das diferentes ferramentas. O mapa ajudou-me a perceber que a sua coerência não reside na quantidade de ferramentas, mas na lógica de articulação entre dimensões: exploro, organizo, ideo/sintetizo, crio, colaboro, socializo e dinamizo — e volto a explorar, organizar… num ciclo contínuo que se alimenta da rede, da reflexão, do intercâmbio.
Xu et al. (2024), no modelo teórico SPET (Self-directed, Personalized, Ecological, Technological), propõem precisamente que um PLE bem estruturado integra quatro dimensões indissociáveis: autonomia do aprendente, personalização das estratégias, ecologia das conexões e suporte tecnológico. Ao rever o meu mapa à luz deste modelo, reconheço que as sete dimensões que construí refletem, de forma intuitiva, estas quatro componentes — o que reforça a coerência interna do meu ecossistema de aprendizagem.
Este trabalho reforça ainda um ponto essencial: um PLE bem desenhado não é apenas tecnológico — é, sobretudo, pedagógico. É uma forma de tomar consciência do próprio processo de aprendizagem, de melhorar a autonomia e de fortalecer a capacidade de aprender com e através dos outros (Attwell, 2023; Rodrigues & Miranda, 2013). Como nos lembra Adell (2010) é, no fundo, a expressão visível de uma forma pessoal e refletida de aprender — e é isso que este mapa procura mostrar.
Referências
Adell, J. (2010). Qué es un PLE - Personal Learning Environment? Entrevista para o projecto CCConocity. https://youtu.be/bLs5166hyiU
Attwell, G. (2023). Personal Learning Environments: looking back and looking forward. Revista de Educación a Distancia (RED), 23(71). https://doi.org/10.6018/red.526911
Cabero-Almenara, J., & Palacios-Rodríguez, A. (2021). The evaluation of virtual education: E-activities. RIED-Revista Iberoamericana de Educacion a Distancia, 24(2), 169–188. https://doi.org/10.5944/ried.24.2.28994
Cenka, et al. (2022). Personal learning environment toward lifelong learning: an ontology-driven conceptual model. https://doi.org/10.1080/10494820.2022.2039947
Downes, S. (2005). E-learning 2.0. eLearn Magazine. http://www.elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1
Mota, J. (2009). Personal Learning Environments: Contributos para uma discussão do conceito. Educação, Formação & Tecnologias, 2(2), 5–21. http://eft.educom.pt/index.php/eft/article/view/105/66
Pinto, M. (2015). Pedagogical potential of personal learning environments in higher education in SAPO Campus platform. EDULEARN15 Conference. https://library.iated.org/view/PINTO2015PED
Rodrigues, P. J., & Miranda, G. L. (2013). Ambientes pessoais de aprendizagem: conceções e práticas. https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/9584/1/997-4403-1-PB.pdf
Wheeler, S. (2009). It's Personal: Learning Spaces, Learning Webs. Slideshare. http://www.slideshare.net/timbuckteeth/its-personal-learning-spaces-learning-webs
Xu, X., Sun, Y., Weng, J., & Zhang, Y. (2024). Theoretical Framework of Personal Learning Environments: SPET Model. Communications in Computer and Information Science, 1974 CCIS, 139–156. https://doi.org/10.1007/978-981-99-8255-4_13
Zhang, Y., Xu, X., Zhang, M., Cai, N., & Lei, V. N. L. (2023). Personal Learning Environments and Personalized Learning in the Education Field: Challenges and Future Trends. In Lecture Notes in Educational Technology (pp. 231–247). Springer. https://doi.org/10.1007/978-981-19-9315-2_13

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