No âmbito do EVBBEU Policy Camp 2025 – Open Schooling (Bruxelas, 30 de setembro a 3 de outubro de 2025), tive o privilégio de visitar o Future Classroom Lab (FCL), criado no início de 2012 na sede da European Schoolnet, em Bruxelas.
Mais do que uma “sala com tecnologia”, o FCL apresenta-se como um ambiente
inspiracional que nos desafia a repensar pedagogia, tecnologia e desenho
do espaço de aprendizagem. Os conceitos trabalhados na disciplina Ambientes
Virtuais de Aprendizagem (AVA) fizeram-me precisamente recuar a esta visita
e na necessidade de refletir convosco sobre a minha experiência.
Uma das ideias mais marcantes da visita foi perceber como o FCL organiza a experiência em seis zonas de aprendizagem (Create, Interact, Present, Investigate, Share/Exchange e Develop). Cada zona corresponde a um tipo de atividade e a uma intencionalidade pedagógica — não é apenas um modo de decoração ou layout moderno. No fundo, o FCL materializa fisicamente aquilo que tantas vezes tentamos fazer em AVA: criar condições para diferentes dinâmicas de aprendizagem, alternando entre colaboração, investigação, produção, partilha, apresentação e reflexão.
Em AVA, temos
discutido que ambientes de aprendizagem eficazes não são “plataformas” no
sentido estrito, mas sim ecossistemas nos quais se articulam espaços,
tempos, tecnologias e interações para gerar experiências
integradas, evitando, ao mesmo tempo, redundâncias e sobrecarga de informação,
sob pena de perda de sentido.
O FCL torna este
princípio quase “visível”: ao circular entre as diferentes zonas de
aprendizagem, fica claro que o fundamental é o desenho das atividades pedagógicas
e a forma como estas se (inter)conectam — e não apenas e só o(s) dispositivo(s)
ou ferramenta(s) usados. Isto reforça a ideia de que, num ecossistema híbrido,
a questão não é “se” combinamos ambientes, mas “como” os combinamos, com
coerência e propósito pedagógico.
Esta lógica traduz-se em escolhas como:
- o que faz sentido ser trabalhado de modo assíncrono, por exemplo, a investigação, leitura crítica, escrita, reflexão;
- o que sai favorecido dos momentos síncronos, tais como a interação sobre significados, feedback, demonstrações, debates, etc;
- e como conectamos estes tempos/ambientes para que o estudante se aperceba de uma continuidade, e não de um conjunto de tarefas paralelas.
O Open
Schooling, tema central do Policy Camp da EVBB, em 2025, reforçou a ideia
de que a aprendizagem se expande para lá da sala de aula tradicional,
aproximando-se de desafios reais e de colaboração com a comunidade (famílias,
municípios, ONGs, empresas, etc.). Neste sentido, a nossa visita ao FCL
funciona como uma metáfora prática do que os AVA podem (e devem) suportar: aprendizagem
conectada, com intencionalidade pedagógica, tarefas orientadas a problemas,
projetos e criação com impacto. Quando um AVA se limita a ser um mero
repositório de conteúdos, reduz-se a “alojamento tecnológico”. É da orquestração de relações e práticas
simbióticas, entre atores humanos e não humanos, que se origina um ecossistema
pedagógico.
Outro ponto que me parece interessante salientar é a forma como a European Schoolnet articula os seus laboratórios físicos com uma rede mais ampla de iniciativas e formação, como a European Schoolnet Academy, que disponibiliza cursos online e MOOCs para desenvolvimento profissional docente.
Isto liga-se diretamente à nossa disciplina: a infraestrutura digital só ganha escalabilidade e sustentabilidade quando é acompanhada por comunidades de prática, capacitação e partilha entre pares. O laboratório, por si só, inspira; a rede (formação, recursos, partilha) ajuda a transformar inspiração em prática sustentada.tes
Embora a visita
se tenha centrado no desenho pedagógico e espacial, é impossível ignorar o
debate atual sobre a utilização da IA na educação. Um exemplo disso aparece na
própria comunicação recente da European Schoolnet sobre a questão “quando faz
sentido a IA nas escolas”, enfatizando temas como governança de dados,
literacia de IA, capacidade docente e bem-estar dos estudantes.
E voltando à
ideia tão cara a esta disciplina: um ecossistema digital não é apenas “mais
tecnologia” — é sobretudo mais intencionalidade, mais ética e mais
capacidade de decisão informada dos seus usuários. E isso é tão válido para um AVA como para
uma sala física "futurista".
- European Association of Institutes for Vocational Training (EVBB). (2025). EVBB EU Policy Camp & Annual Conference 2025 – Open Schooling. https://evbb.eu/events/evbb-eu-policy-camp-annual-conference-2025/
- Future Classroom Lab. (n.d.). Future Classroom Lab (European Schoolnet). https://fcl.eun.org/
- Future Classroom Lab. (n.d.). The Learning Zones. https://fcl.eun.org/learning-zones
- Moreira, J. A., & Horta, M. J. (2020). Educação e ambientes híbridos de aprendizagem: Um processo de inovação sustentada. Revista UFG, 20, e66027. https://doi.org/10.5216/revufg.v20.66027
- European Schoolnet. (2026). Eminent 2025 – When does AI make sense in schools? http://www.eun.org/eminent-2025
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