A aceleração da vida social, profissional e da produção do conhecimento constitui um dos traços estruturantes da era pós-moderna, mantendo-se na pós-modernidade, ainda que a ideologia do progresso linear e infinito tenha perdido centralidade. No contexto da Sociedade em Rede, descrita por Manuel Castells, esta aceleração ganha uma nova dimensão: o conhecimento deixa de ser produzido e validado apenas em espaços institucionais fechados e passa a circular em redes abertas, interconectadas e globais.
Segundo Castells, a Sociedade em Rede caracteriza-se por uma lógica
organizacional em rede, sustentada pelas tecnologias digitais, e por uma
condição de informacionalidade, na qual a informação e o conhecimento se
tornam os principais recursos de produtividade, inovação e poder (Castells
& Cardoso, 2006). Neste quadro, a educação é confrontada com desafios
profundos, que exigem a superação de modelos pedagógicos centrados na
transmissão linear do saber.
Este contexto ajuda a compreender um dos paradoxos centrais enunciados na
atividade proposta da unidade curricular Sociedade em Rede: quando um
artigo científico é publicado, frequentemente já não representa novidade para a
comunidade científica. Coloca-se, assim, a questão da sua validade e utilidade,
à data da sua publicação. No entanto, como defendem vários autores no domínio
da Educação Aberta, essa utilidade não desaparece, mas sim, transforma-se
e apresenta gradações, dependendo dos públicos e dos contextos de reutilizção.
É precisamente neste ponto que os Recursos Educacionais Abertos (REA) e as Práticas Educacionais Abertas (PEA) assumem um papel estruturante.
Educação Aberta como resposta à lógica da
Sociedade em Rede
A Declaração de Paris da UNESCO (2012) define os REA como materiais
educativos que podem ser usados, adaptados e redistribuídos livremente. David
Wiley (2011) operacionaliza esta abertura através dos 5R — Reter,
Reutilizar, Rever, Remisturar e Redistribuir — permitindo assim que o conhecimento seja
partilhado, apropriado, transformado e se mantenha vivo em ecossistemas
educativos abertos.
Esta perspetiva está profundamente alinhada com a visão de Castells – que temos
vindo a estudar neste semestre - quando afirma que a Internet não é apenas uma
tecnologia, mas a forma organizativa das sociedades contemporâneas,
desempenhando um papel equivalente ao da fábrica na era da revolução industrial
(Castells, 2003). Assim, a Educação Aberta pode ser entendida como uma
transposição pedagógica da Sociedade em Rede: uma educação aberta,
colaborativa, em rede e orientada para o Bem Comum.
Os REA e as PEA só adquirem verdadeiro significado quando integrados em ecossistemas
pedagógicos abertos, que articulam recursos, práticas, políticas
institucionais e comunidades de aprendizagem, promovendo inovação pedagógica
sustentada (Bastos & Carvalho, 2019).
Práticas educacionais abertas inovadoras
1. Wikipédia como prática educacional aberta
Embora não seja propriamente inovadora e nova, criada a 15 de
Janeiro de 2025, a Wikipédia continua a ser uma prática emblemática da
Sociedade em Rede aplicada à educação. Nasceu como “um complemento ao seu
similar, o projeto Nupedia (escrito por especialistas). A
Wikipedia acabou substituindo a Nupedia, crescendo até se tornar um projeto de
amplitude global, sendo que em 2009 já contava com milhões de artigos e páginas
difundidas mundialmente, e conta com centenas de milhares de contribuintes ou
colaboradores” ((Wikipédia, 2026), num processo distribuído, aberto e
colaborativo.Os conteúdos são publicados sob licença CC BY-SA, permitindo
plenamente os 5R.
Neste contexto, a novidade ou inovação da Wikipédia, está na mais recente notícia no âmbito do seu 25º aniversário: o reforço do seu papel estratégico no ecossistema da educação aberta ao anunciar parcerias com plataformas de inteligência artificial, nomeadamente com sistemas desenvolvidos pela Meta, Microsoft e Perplexity, visando a integração de IA generativa nos seus processos de organização, verificação e disseminação de informação. Esta evolução representa uma nova fase da Wikipédia e do seu contributo para a educação aberta, na qual a inteligência artificial se articula com o conhecimento aberto, ampliando a capacidade de curadoria, tradução, adaptação e reutilização dos conteúdos, sem abdicar dos princípios da abertura, transparência e colaboração. A Wikipédia deixará de ser apenas um projeto colaborativo online, para se apresentar como uma infraestrutura cognitiva global que alimenta sistemas de IA e fluxos de dados massivos (datificação), mostrando como o conhecimento circula abertamente e se vai valorizando em novos contextos.
2. MIT OpenCourseWare (OCW)
O MIT OpenCourseWare é um bom exemplo de
como o conhecimento académico pode circular em rede, ultrapassando as
fronteiras institucionais, económicas e geográficas. Lançada em 2001, esta
iniciativa pioneira disponibiliza gratuitamente o currículo completo do
Massachusetts Institute of Technology (MIT), incluindo planos de curso,
apontamentos, leituras, vídeos e outros materiais de apoio, maioritariamente
sob licenças Creative Commons, permitindo a retenção, reutilização, revisão,
remixagem e redistribuição dos recursos, em conformidade com os 5R definidos
por Wiley.
De acordo com a própria missão do MIT OCW, esta prática assenta em três eixos fundamentais:
- democratização do conhecimento, ao tornar acessível educação de alta qualidade a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo;
- inspiração, funcionando como modelo para outras instituições e empoderando docentes a adaptarem e integrarem estes recursos nas suas práticas pedagógicas;
- e comunidade, ao fomentar uma cultura de aprendizagem contínua e de partilha aberta, beneficiando milhões de estudantes, professores e autodidatas a nível global
Mesmo num contexto de rápida obsolescência informacional, os conteúdos aqui
partilhados mantêm utilidade como base conceptual, recurso introdutório ou
ponto de partida para novas aprendizagens. Como referem Bastos e Carvalho
(2019), a abertura transforma o conhecimento de um produto fechado num processo
pedagógico contínuo, coerente com a lógica da inovação aberta descrita por
Castells. Para investigadores, podem constituir bases conceptuais sólidas; para
professores, recursos adaptáveis a diferentes currículos; para estudantes,
materiais introdutórios ou de aprofundamento; e para a sociedade em geral,
instrumentos de literacia científica e técnica. A universidade deixa de ser um
espaço fechado de produção e transmissão do saber, passando a atuar como nó
ativo numa rede de conhecimento, onde a inovação pedagógica emerge da
circulação, adaptação e recombinação dos recursos.
A relevância do MIT OpenCourseWare – e dos demais OERs - torna-se ainda mais evidente no atual contexto geopolítico, marcado por tensões em torno do acesso aberto ao conhecimento científico. As recentes orientações políticas nos Estados Unidos, associadas à administração Trump, têm levantado grandes preocupações quanto a tentativas de condicionamento do acesso a dados científicos, nomeadamente em áreas sensíveis como as alteraçõesclimáticas, bem como ao enfraquecimento de políticas de Open Access. Neste cenário, iniciativas como o MIT OCW assumem um papel crucial enquanto infraestruturas de conhecimento independente, protegidas de ciclos políticos e de interesses ideológicos conjunturais. O conhecimento deve ser tratado como um bem comum, público e global, condição essencial para sociedades democráticas, informadas e resilientes.
3. A criação de REA por estudantes
Na minha pesquisa para este post, deparei-me com a possibilidade de
trazer como exemplo, não mais um REA
concreto, mas sim uma prática educacional aberta concreta, inovadora e
com impacto documentado: a criação de REA gerados por estudantes, ligada
à metodologia de aprendizagem baseada em pesquisa. Este modelo, que tem vindo a ser estudado e aplicado emvárias instituições de ensino, propõe que os estudantes produzam recursos
educativos abertos como parte integrante da sua aprendizagem, contribuindo para
um Commons pedagógico global.
Investigações recentes mostram que, quando os estudantes são chamados a cocriar
OER — por exemplo, explicações, guias, vídeos educativos ou simulações
interativas sobre temas científicos — a experiência impulsiona não apenas a
aquisição de conteúdos, mas também competências transversais de autorregulação,
pensamento crítico, literacia digital e resolução de problemas, que são
centrais à formação em contexto científico. Por exemplo, este tipo de abordagem
tem sido explorado como forma de “inspirar a próxima geração de estudantes e
docentes em STEM” (Rich, Doyle & Orbach, 2025), promovendo a criação de
recursos que são reutilizáveis por outras comunidades educativas e que
alimentam ecossistemas colaborativos de aprendizagem aberta.
A prática concreta de envolver os estudantes na produção de OER cumpre plenamente os 5R de David Wiley: ao finalizar os seus projetos, os estudantes e docentes podem reter cópias, reutilizar materiais noutras disciplinas ou contextos, rever e adaptar conteúdos, remisturar com outros recursos existentes e redistribuir amplamente sob licenças abertas — transformando tarefas pontuais em artefactos de valor público e sustentável. Do ponto de vista pedagógico, este modelo vai além da produção de um trabalho académico descartável e institui uma cultura de cocriação de conhecimento, em que os estudantes são agentes ativos do seu processo de aprendizagem.
A participação ativa dos estudantes não só reforça a compreensão conceitual como também aumenta a motivação, a autonomia e a perceção de relevância dos conteúdos — fatores essenciais para enfrentar desafios complexos de aprendizagem e para preparar cidadãos informados e críticos num mundo em rede. Esta prática concreta exemplifica, em termos pedagógicos e sociais, a ideia de que o conhecimento não perde a sua validade apenas por ter sido produzido anteriormente, contrariando a ideia do “academismo”, mas pode renovar-se e expandir-se quando integrado em redes abertas de produção coletiva e quando os estudantes são participantes reais desse processo.
Em conclusão:
A Sociedade em Rede redefine profundamente a forma como o conhecimento é
produzido, validado e partilhado. Neste contexto, a Educação Aberta surge como
uma resposta pedagógica coerente com a lógica informacional contemporânea, ao
permitir que o conhecimento científico permaneça vivo, reutilizável e
socialmente relevante, apesar da aceleração da sua produção.
Ao fomentar a partilha, a colaboração e o reuso de REA, as PEA contribuem
para a autonomia dos aprendentes, promovem inovação pedagógica e reforçam a
educação como Bem Comum, em ecossistemas educativos mais flexíveis,
sustentáveis e equitativos (UNESCO, 2021; Shareefa et al., 2023).
Mais do que a simples introdução de tecnologias, esta transformação exige,
como alerta Castells, uma mudança cultural profunda, baseada em diálogo,
colaboração e responsabilidade social. Só assim será possível formar cidadãos
críticos e preparados para atuar num mundo interconectado.
A aceleração da
produção do conhecimento, característica da Sociedade em Rede, não
implica necessariamente a perda de validade ou utilidade do saber científico,
mas antes a sua reconfiguração em termos de usos, públicos e
temporalidades. Ao longo deste post fomos concluindo quw, a questão central já
não reside apenas na atualidade imediata da informação, mas na sua capacidade
de circular, ser reinterpretada, adaptada e reapropriada
em contextos diversos, ao longo do tempo.
Os três exemplos analisados — a Wikipédia, o MIT OpenCourseWare e a metodologia de criação de Recursos Educacionais Abertos por estudantes — ilustram diferentes níveis e escalas de concretização da Educação Aberta enquanto resposta pedagógica à lógica da Sociedade em Rede.
- Wikipédia evidencia o poder da produção colaborativa e distribuída do conhecimento;
- o MIT OpenCourseWare demonstra como as instituições de ensino superior continuam a assumir um papel ativo na democratização do saber e tão necessário nos dias de hoje; e
- a geração de REA por estudantes representa uma transformação profunda das práticas pedagógicas, deslocando o foco da transmissão/ facilitação para a cocriação do conhecimento, colocando o aluno no centro do processo de aprendizagem e a sua consequente responsabilização nesse processo.
Nos três casos,
os princípios dos 5R de David Wiley permitem ultrapassar a lógica do
conhecimento como produto fechado e efémero, promovendo antes um conhecimento
vivo, processual e socialmente útil, cujo valor se renova à medida que circula
em redes abertas. Tal como defendem Bastos e Carvalho (2019), a inovação
pedagógica associada às práticas educacionais abertas não é meramente
tecnológica, mas estrutural, implicando novas relações entre saber, poder e
aprendizagem.
Num contexto
geopolítico marcado por tentativas de condicionamento do acesso à informação
científica e por fragilidades nas políticas de Open Access, a Educação
Aberta assume também uma dimensão ética e política, ao afirmar o
conhecimento como bem comum, público e global, independente de ciclos
ideológicos ou interesses conjunturais. Neste sentido, as práticas educacionais
abertas contribuem não apenas para a qualidade e sustentabilidade dos processos
educativos, mas para o fortalecimento de sociedades mais democráticas, críticas
e informadas.
Assim, a Educação Aberta, entendida como expressão pedagógica da Sociedade em Rede descrita por Castells, não invalida o conhecimento científico tradicional, mas reconfigura o seu papel, integrando-o em ecossistemas de aprendizagem mais flexíveis, colaborativos e democratizados. Num mundo em permanente mudança, é esta capacidade de abertura, adaptação e partilha que permite que o conhecimento permaneça relevante, significativo e verdadeiramente transformador.
Referências
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