Hoje tive a oportunidade de assistir a uma talk promovida pelo LE@D – Laboratório de Educação a Distância e eLearning da Universidade Aberta, intitulada “Educação Híbrida e desenho curricular na Pós-Graduação: o pensamento de bell hooks na pesquisa em educação”. O evento integra a série LE@D Talks, que regularmente traz discussões relevantes sobre pedagogia digital, ensino online e inovação educativa.
A sessão trouxe uma reflexão muito rica sobre educação híbrida, investigação em educação e, sobretudo, sobre como o pensamento de bell hooks pode inspirar formas mais humanas, críticas e participativas de ensinar e aprender.
Educação híbrida, prática e investigação
A professora Edméa Santos referiu que muitas instituições, especialmente durante a pandemia, passaram para modelos remotos síncronos sem necessariamente desenvolverem verdadeiras práticas de ensino online ou híbrido. Ou seja, o simples facto de usar tecnologia não significa que se esteja a inovar pedagogicamente. "Inovar é fazer diferente do que aquilo que a gente sempre fez!" Dando o exemplo verdadeiramente inovador da Apple quando integrou o teclado num ecrã touch, fazendo diferente da concorrência, que integrou um teclado analógico que só tinha cabimento prático num laptop, e não num dispositivo de pequenas dimensões.
A discussão apontou para a necessidade de repensar o desenho curricular, sobretudo na pós-graduação, valorizando:
- a participação ativa dos estudantes
- a construção coletiva de conhecimento
- a autoria e autonomia dos estudantes adultos
- práticas pedagógicas alinhadas com investigação e experiência docente
Nesta linha, Edméa Santos referiu que teoriza sobre aquilo que praticam — um princípio que reforça a ligação entre prática pedagógica e investigação em educação.
Da educação a distância interativa à educação a distância afetiva
Para mim, um dos momentos mais marcantes da sessão foi a intervenção do professor António Quintas‑Mendes, professor da UAB, que trouxe uma reflexão particularmente emotiva sobre o ensino online.
Tradicionalmente fala-se muito de educação a distância interativa. No entanto, o professor propôs ir além disso e pensar numa educação a distância afetiva.
Esta ideia parte de algo simples, mas muitas vezes esquecido: que do outro lado do ecrã estão pessoas reais.
Humanizar o ensino online implica:
- reconhecer a dimensão emocional da aprendizagem
- criar espaços de partilha pessoal
- valorizar a presença social no ambiente digital
- mostrar entusiasmo e gosto pelo ensino
Foram partilhados alguns exemplos muito interessantes de práticas que procuram cultivar essa dimensão afetiva:
- festas virtuais com estudantes
- comentar um poema em conjunto
- partilhar experiências pessoais
- criar momentos informais de encontro
Estas pequenas práticas ajudam a criar comunidade, algo essencial no ensino a distância.
Outro aspeto interessante foi o uso de ferramentas como Notion para materializar e tornar visível o que os estudantes produzem, permitindo que o trabalho coletivo se transforme num espaço vivo de aprendizagem.
Inovar não é automatizar
Outra ideia que ficou desta conversa foi que inovar não significa simplesmente digitalizar ou automatizar processos. Pelo contrário: inovar pode significar fazer de forma diferente aquilo que sempre fizemos, garantindo conexões humanas e pedagógicas. Num contexto em que a tecnologia tende a padronizar práticas, segundo a intervenção do Professor Quitas Mendes, é importante resistir à homogeneização do ensino e preservar a dimensão humana da educação.
No ensino de adultos — particularmente relevante na pós-graduação — surgiu também uma reflexão interessante:
- adultos podem desenvolver autonomia
- os estudantes permanecem porque querem permanecer
- o papel do professor é ajudar a garantir que cada pessoa seja autora de si mesma
Esta visão aproxima-se muito das pedagogias críticas inspiradas por bell hooks e por Paulo Freire, nas quais o processo educativo é entendido como emancipador, participativo e profundamente humano.
Uma reflexão enquanto estudante a distância
Assistir a esta talk no contexto da disciplina MPeL – Processos Pedagógicos em eLearning ajudou-me a olhar para o ensino online de uma forma mais crítica e também mais humana.
Enquanto estudante de e-learning, foi particularmente interessante perceber como as dimensões pedagógica, tecnológica e relacional estão profundamente interligadas.
A ideia de educação a distância afetiva ficou como uma das reflexões mais fortes desta sessão, lembrando que o ensino online não deve ser apenas eficiente ou tecnológico — deve também ser humano, relacional e significativo.
Referências e recursos partilhados
- HOOKS, bell Além da raça: uma reimaginação da questão racial.** São Paulo: Elefante, 2021.
- HOOK, bell. E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.
- HOOKS, bell. Ensinando o pensamento crítico: saberes da prática pedagógica. São Paulo: Elefante, 2020.
- HOOKS, bell. Erguer a voz. São Paulo: Elefante, 2019.
- HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
- HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.
- HOOKS, bell. Pertencimento: uma cultura do lugar. São Paulo: Elefante, 2022.
- HOOKS, bell. Tudo sobre amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021
- Marco Silva — De Anísio Teixeira à Cibercultura: Desafios para a Formação de Professores Ontem, Hoje e Amanhã link
- Silva, Marco. Prefácio: Paulo Freire e a IA generativa, no livro IA generativa e educação: práticas e teorizações. Disponível em: https://iaeducacao.uniriotec.br/pre-texto/prefacio/
- Revista Docência e Cibercultura https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc
- Recurso online organizado na plataforma Notion para partilha de materiais, atividades e produções dos estudantes. Disponível em: https://torch-halibut-2e8.notion.site/P-gina-da-disciplina-1b833d101c1a8032a5efd4c21be135d3
Mais informações sobre a talk:
https://lead.uab.pt/led-talk-educacao-hibrida-e-desenho-didatico-na-pos-graduacao/

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