Reflexão sobre processo de produção de um REA

Este trabalho nasceu de uma inquietação dupla — e muito pessoal. Por um lado, da necessidade de operacionalizar as políticas europeias para a transição verde e digital no contexto do Ensino e Formação Profissional (EFP), algo que acompanho no meu trabalho diário em projetos europeus ligados ao desenvolvimento de Formação e (novas?) Qualificações. Por outro, do compromisso com práticas abertas (REA) que promovam a reutilização, a colaboração e a redução de barreiras de acesso. A observação continuada de políticas e iniciativas europeias fez-me perceber, no terreno, que as competências verdes deixaram de ser um “tema emergente” e apenas ligado a profissões ligadas, por exemplo, a áreas de engenharia do ambiente e similares; para se afirmarem como tendência estruturante e imprescindível nas políticas europeias de capacitação — e isso exigia um recurso prático, acionável e partilhável. Seria uma oportunidade para mim de partilhar com a turma um pouco da minha experiência, temáticas e ferramentas de trabalho e dos resultados de uma pequena amostra de projetos que têm como objetivo, também eles, a ideação, conceção, validação e disponibilização de REA.

A proposta inicial foi validada pela Professora Ana Nobre, sublinhando a pertinência e atualidade do tema, o que me deu confiança para avançar com uma solução concreta e aplicável (microlearning em Rise 360) e partilhar o resultado no meu portefólio digital.

A versão final está publicada neste post e também visível em link direto RISE360 O primeiro ensaio no post


Alinhamento estratégico e desenho pedagógico

O ponto de partida foi clarificar porquê e para quem. O módulo dirige-se a docentes e formadores do EFP (reskilling/upskilling) e responde ao desafio de uma

temática extremamente atual: a twin transition (verde + digital) inscrita no Pacto Ecológico Europeu, na Agenda Europeia de Competências e noutros instrumentos correspondentes. Em termos de referenciais, articulei o Quadro de Competências para a Sustentabilidade - GreenComp, o DigCompEdu – Quadro de Competências Digitais do Educador - para orientar escolhas didáticas e tecnológicas.

Quanto ao formato, optei por microlearning (cerca 30-40 minutos, 4 lições curtas com uma pequena avaliação final para reforço das competências adquiridas). Fi-lo por três razões: (i) facilitar a adoção rápida por parte de quem tem pouco tempo; (ii) permitir a granularidade necessária para reutilização e remix dos materiais partilhados; e (iii) favorecer feedback imediato (autoavaliação) para reforço da aprendizagem. A estrutura procurou equilibrar conceitos essenciais, quadros europeus de referência, conceitos do curso de mestrado, projetos reais (com os quais trabalho) e um conjunto de ferramentas digitais abertas que facilitam o “como fazer” no terreno. Em suma, procurei que este curso fosse também ele uma “toolbox” com uma pequena curadoria e sugestões de implementação e exploração.

Princípios de abertura (REA) e escolhas tecnológicas

Desde o início, defini que o REA seria partilhado sob licença CC BY (ou CC BY-SA), com créditos TASL (Título–Autor–Fonte–Licença) e ligações para as fontes — porque a abertura jurídica é tão importante quanto a qualidade pedagógica. Em paralelo, deparei-me com a questão da abertura técnica: apesar de o Rise 360 ser uma ferramenta proprietária (o ficheiro editável não é “aberto”), a exportação em HTML/Web permite redistribuir e incorporar o curso (por exemplo, no meu Blogger ou noutro site semelhante), mantendo intactos os conteúdos, quizzes e navegação. Para além deste formato, permite-se a exportação em pacote SCORM compatível com outros LMS – learning management system.

Aqui reconheço uma tensão: a ferramenta acelera o time-to-design e garante responsive design, mas limita a edição colaborativa por terceiros. Para mitigar esta limitação, complementei a publicação com descrições claras, ligações às fontes, licenças explícitas e estruturas modulares (lições facilmente destacáveis).

No futuro, poder-se-ia acrescentar materiais de apoio editáveis (guiões em .docx, imagens .svg, folhas de exercícios, entre outros) como “pacote REA” descarregável para facilitar revisão, remix e adaptação por terceiros.

Esta ferramenta foi selecionada pois já a conhecia vagamente e sabia que a minha organização dispunha da licença. Esta UC foi assim, a oportunidade para explorar a sério a software e ganhar proficiência — tanto mais que não tinha experiência prévia em HTML ou produção de websites, soluções que outros colegas tão brilhantemente apresentaram. Assim, experimentei uma ferramenta profissional amplamente usada e, em paralelo, construí um REA com aplicabilidade imediata e partilhável em diferentes formatos,

Da curadoria ao conteúdo: o “como” que se vê

A componente de curadoria focou em repositórios e ferramentas abertas (OER Commons, MERLOT, OpenStax; Openverse/Commons/Europeana) e projetos europeus alinhados com a sustentabilidade (ECF4CLIM, SUSTAIN-EU). Esta seleção sustenta a promessa feita na introdução do módulo: passar do “o quê” para o “como” com recursos prontos a reutilizar/adaptar nas práticas do EFP, respeitando licenças CC e boas práticas de atribuição.

No plano didático, privilegiei:

• Micro atividades com quizzes para promover a practicidade e momento de autoavaliação;

• Exemplos e casos europeus para transferir conceitos para contextos reais (escola–empresa–comunidade);

• Tarefas aplicadas (p. ex., mapeamento de ferramentas/REA para um cenário de curso) para reforçar a agência docente.

Implementação técnica

A publicação no Blogger exigiu a incorporação do pacote Web/HTML do Rise. Tive o apoio do AI - ChatGPT (versão gratuita) para acertar detalhes de incorporação HTLM e hosting do pacote do curso, usando o GitHub – plataforma e processo que eu desconfia por completo; o que constituiu uma aprendizagem instrumental valiosa para futuras partilhas. Esta etapa reforçou uma ideia central do curso e da própria filosofia REA: partilhar o suficiente para que outros consigam replicar — e, idealmente, melhorar.

Também experimentei integrar imagens geradas por IA para fins ilustrativos. Por uma questão de transparência e ética, identifiquei estas utilizações e mantive a prática de creditação clara das fontes. Em trabalhos futuros, quero aprofundar a avaliação crítica destas imagens (viés e representatividade) e, sempre que possível, priorizar media aberta com licenças CC em repositórios reconhecidos.

Aspectos positivos e desafios encontrados

O alinhamento político pedagógico com as políticas da UE e com quadros como o GreenComp conferiu relevância e coerência ao conteúdo, assegurando que as opções didáticas respondem a prioridades reais do sistema. Em paralelo, o foco em REA — através da curadoria de repositórios credenciados e do compromisso com licenças abertas — materializou a visão de educação aberta com utilidade imediata

para o EFP, facilitando a reutilização e a partilha responsável. Finalmente, a aplicabilidade ficou assegurada pelo formato microlearning e pelos quizzes, que tornaram a aprendizagem mais transferível para a prática e sustentada por avaliação formativa contínua.

Já no plano da gestão de tempo e âmbito, reconheço que fui ambiciosa na curadoria e na montagem do curso, o que acabou por exigir mais iterações e replaneamento do que antecipara. Em paralelo, a opção por uma ferramenta proprietária (Rise 360) trouxe um claro auxílio: acelera o design e garante responsive design, mas limita, como já referi, a abertura; por isso, adotei medidas de mitigação — documentação detalhada, licenças explícitas, estrutura modular das lições e links externos — para preservar a filosofia REA. Quanto à acessibilidade, embora tenha havido cuidado com texto alternativo, hierarquia e contrastes, permanece margem para testes sistemáticos, nomeadamente aplicação de checklists WCAG e validações com leitores de ecrã, de forma a consolidar a inclusão em futuras iterações.

O que posso melhorar, medir e escalar

Numa atividade semelhante terei de ter em conta o reforço da abertura técnica, publicando no post um pacote de apoio para facilitar o remix; e avaliar o impacto, recolhendo feedback via formulário simples, monitorizando a conclusão dos quizzes e pedindo evidências de uso (adaptações em contexto real). Em paralelo, será importante pensar na interoperabilidade, exportando uma versão SCORM para teste em LMS e publicando a versão Web em OER Commons (ou repositório institucional) com metadados completos, assegurando maior visibilidade e reutilização.

Considerações finais

Este processo foi trabalhoso, mas sobretudo produtivo: permitiu me transformar a reflexão sobre a transição verde em ação pedagógica tangível, ancorada em educação aberta e qualidade. A validação da professora e o diálogo com colegas reforçam a convicção de que, no EFP, pequenos módulos bem curados e abertos podem amplificar a mudança — especialmente quando partilhados e remisturados por quem está no terreno. Pelo menos assim o tentei.

Sigo, por isso, com dois compromissos: iterar (melhorando acessibilidade, abertura e avaliação) e partilhar (publicando, documentando e convidando outros a adaptar). É desta forma que a promessa de “competências verdes para todos” se aproxima da prática quotidiana de docentes e formadores — um recurso aberto de cada vez.

Obrigada por este desafio tão interessante!

Nota: Imagem ilustrativa feita com recurso a AI, Copilot.

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