A Arca de Noé na Era da Cibercultura – Responsabilidade Individual e Inteligência Coletiva

O filósofo e sociólogo Pierre Lévy, em Cibercultura, utiliza a metáfora do “dilúvio informativo” para descrever a sociedade contemporânea e a cheia de dados que nos imerge. Se considerarmos a cibercultura como um vasto oceano, este fenómeno de fluxo ininterrupto de informação é o dilúvio e a “Arca de Noé” poderá materializar-se através da nossa responsabilidade e liberdade individuais, enquanto cidadãos, de preservarmos o essencial do nosso património cultural.  Mas seremos nós, isoladamente, capazes de totalizarmos ou dominarmos todo o conhecimento que nos chega em vagas constantes? Ou precisaremos de uma navegação coletiva?

Lévy começa por veicular que tecnologia e cultura estão profundamente interligadas: uma condiciona a outra, em diálogo, e não em impacto unilateral. Nesta perspetiva, a filtragem e preservação dos saberes não dependem apenas dos dispositivos técnicos – media – mas sim da atitude ética de todos nós, enquanto seres sociais, no nosso individualismo e atuando numa "inteligência coletiva". Este é o coração da cibercultura: uma inteligência coletiva distribuída, mobilizada e valorizada continuamente. É na (sociedade em) rede que, através da inter-atividade e da co-criação que se constrói um sentido, um rumo, no vasto oceano de informação. A “arca” não é, assim, objeto físico, mas sim um conjunto de práticas virtuais partilhadas que emergem da participação interconectada de cada nauta.

Contudo, o ciberespaço -  como alternativa aos mass media tradicionais, no qual o público é recetor anónimo e passivo da informação - não está isento de desafios. Quando o papel do emissor e do recetor se funde, qualquer grupo, comunidade ou indivíduo tem a possibilidade interativa da comunicação: de muitos para muitos ou de um para muitos. A esta nova potencialidade de comunicação, a baixo custo, impõe-se a responsabilidade de fazer face à desinformação, às fake news, à fragmentação cultural. Requer-se um pensamento crítico e literacia digital omnipresentes, para que a “inteligência coletiva” não se torne numa “inteligência caótica”, sem rumo, e para que a liberdade de expressão (individual) ampliada pelo digital seja exercida com ética e responsabilidade.

Será assim suficiente uma ação individual ou a filtragem preservadora do património cultural requer mecanismos grupais e institucionais? Lévi fala em “árvores de competências”, como ferramentas que funcionam como mapas dinâmicos, orientando os nautas na navegação do ciberespaço em constante mutação. Nesta nova configuração da comunicação agrupam-se afinidades, saberes e novas ligações sociais. As comunidades virtuais, tais como o Facebook, Instagram e os seus influenciadores e followers,  fóruns de discussão online – como mímicas virtuais do antigo  forum romanum – ou os projetos de educação aberta e iniciativas de curadoria coletiva, como os Recursos Educacionais Abertos (REA); exemplificam estratégias que conjugam não só, as liberdades individuais e a responsabilidade coletiva da filtragem preservadora do nosso património cultural, mas também detentora do poder de modificar, co-criar e atualizar “a obra”.

A metáfora da Arca de Noé, aplicada à cibercultura, sugere um movimento de seleção e salvaguarda. No entanto, ao contrário da narrativa bíblica, não se trata de preservar espécies num espaço fechado, mas sim de cultivar diversidade num ecossistema aberto e imprevisível. Paralelamente, a educação deve adaptar-se a esta nova economia do saber respondendo à necessidade de Aprendizagem Aberta e à Distância, na qual o professor é “animador da inteligência coletiva” e o aluno responsável pelas suas próprias estratégias de aprendizagem – “brasão da pessoa”.  A cibercultura é, segundo Lévi, um “universal sem totalidade”: não há um modelo único, nem um centro regulador. A preservação do essencial dependerá, assim, da capacidade de articular a autonomia individual com a inteligência coletiva, num equilíbrio entre liberdade e responsabilidade.

Em síntese, a nova Arca não será construída por um único “Noé”, mas por uma multiplicidade de nautas conscientes, capazes de transformar o dilúvio informativo num oceano de possibilidades. Para isso, é essencial que a educação se adapte a  esta “transação de conhecimentos contínua” respondendo com modelos pedagógicos abertos e à distância, que promovam a literacia digital, as práticas colaborativas e o reforço dos valores éticos que orientem a ação no ciberespaço. Só assim poderemos garantir que, no meio da tempestade diluviana, não se perca aquilo que constitui o património cultural essencial da humanidade.

 Lévy, P. (2000). Cibercultura (J. D. Ferreira, Trad.). Instituto Piaget. (Trabalho original publicado em 1997)


Nota: Imagem gerada com recurso à Inteligência Artificial.


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